Percursos Comuns, 2ª Edição, Casa do Comum, Lisboa
Condição

Saí de casa à pressa, nem o pequeno almoço tomei. Está frio e estou farta. Não tenho roupa para isto. Não quero andar na rua como se estivesse em casa de pijama, mas também não estou em posição, ou seja não tenho dinheiro, para ter uma roupa para usar fora de casa e outra para usar dentro de casa. Por isso, saio de casa com a roupa que tenho e que acho mais bonita, o que me leva a passar frio.
Afundo a mão na bolsa que trago comigo, castanha, a imitar pele, cruzada à frente do peito, enquanto a outra mão tira o passe para fora do bolso do casaco. O autocarro está a chegar. Preciso confirmar se trouxe o envelope, mas não o encontro. O autocarro aproxima-se e não há ninguém à minha frente. Está mesmo frio, nem sinto a ponta dos dedos. Continuo a agitar a mão dentro da bolsa enquanto atiro o passe contra o leitor, já dentro do autocarro. Tenho menos de cinco segundos para decidir se fico ou saio, ou o envelope aparece agora ou vou ter que voltar a casa e chegar atrasada. Ou o envelope aparece agora ou vou ter que chegar lá e dizer que não trouxe nada. Não sei o que é pior. Paro no meio da primeira ala do autocarro e vejo que afinal entram mais pessoas atrás de mim, que começam desde logo a protestar.
“Esta gente.”
A mulher e o homem que estão atrás de mim falam mais alto do que alguma vez ousei sequer falar dentro de casa. Falam de mim como uma coisa que se atravessou no seu trajeto inabalável rumo ao banco de autocarro que desejam conquistar, que, em virtude da minha breve pausa, pode estar agora comprometido. Continuo sem perceber o motivo pelo qual o meu silêncio, os meus gestos reservados, o meu recato os incomoda tanto. Eu nem tiro os olhos do chão, não sei o que é andar de costas direitas, de olhar em frente, não sei o que é olhar alguém nos olhos. Na verdade, eu acho que não ocupo espaço algum, sou invisível, nem uma peça na engrenagem sou. Sou o que fica antes disso. Sou poeira neutra.
Encontrei o envelope, estava no bolso de dentro do casaco de ganga. Estão 8º graus em Lisboa e talvez tenha que juntar dinheiro para um casaco mais quente. Lá para o início da primavera. Para já, tenho um inverno pela frente e à primeira vista, vai ser desconfortável. Está sempre tudo molhado, nada aquece, nem a casa, nem a roupa, nem a comida. A minha sorte é que começo a trabalhar cedo e aqueço logo. Chego a ir para o serviço com as cuecas molhadas, o soutien também, às vezes a tshirt porque não consigo secar nada em casa. Podia tentar aquelas lavandarias da rua, têm máquina de secar, não têm? Eu acho que sim. Podia ir a uma dessas, mas tenho medo porque só conseguiria ir depois das dez, e a essa hora tenho medo de andar na rua.
Mas como dizia, quando chego ao trabalho, o frio passa. Peço sempre à Clarice para ficar com os aspiradores porque aproveito para aquecer as mãos, às vezes até enfio o tubo do aspirador dentro da minha roupa para aquecer as pernas, as costas e também o pescoço. Depois começa a parte que mais gosto, limpar. Se tudo corre como planeado, a Suzie leva a loiça que deixaram nas secretárias e ocupa-se disso e das copas. Frigorífico inclusive. Há uns tempos, colaram uma folha na porta do frigorífico a dizer que todas as comidas que ficarem às sextas à tarde, vão para o lixo. O lixo somos nós e não nos importamos, mesmo que até seja alguma coisa já fora do prazo. Nunca levo comida aos sábados porque sei que o frigorífico vai ter algo para mim. Normalmente, calha-me uma massa fria. Leva a alface que já conheço, depois uma outra alface pontiaguda que faz crack crack na boca. Depois azeitonas partidas ao meio, mas acho que já devem vender assim. Depois tem uns quadradinhos de pão crocantes, meio secos, não gosto muito, mas não sei se são mesmo assim, porque nunca fui a essa secção do supermercado.
A Annya limpa o pó e depois entro eu, com os aspiradores. Gosto do barulho porque posso gritar sem ninguém dar conta.
A maioria das minhas colegas nem tem tempo sequer para ter sensações. Eu estou na cauda da sociedade, mas elas estão na ponta da cauda ou a tentar agarrar a ponta da cauda para não serem centrifugadas para sempre. Centrifugar é para fora, não é?
Eu falo assim, com estas palavras que nem são nada de especial, mas já são alguma coisa, porque sou de uma geração que tem a internet e com ela pude chegar a mundos que de outra forma nem iria saber que existem. Mas uma coisa tenho que dizer: ter internet não chega. É preciso ter um estímulo, alguém que nos mostre essas outras vozes e esses outros mundos. No caso da maioria das pessoas como eu, os nossos pais estão a tentar não ser cuspidos do mundo, e portanto, não lhes sobra tempo, disposição, saúde a ponto de lhes ocorrer dizer “Antonieta, inscreve-te na biblioteca. Antonieta, olha aqui este programa de televisão. Antonieta, conta-nos o que estás a aprender na escola. Ah muito bem, devias ler também isto, para te ajudar naquilo, vais ver que mais tarde te vai dar jeito, filha.”
Não tive nenhuma destas interações com os meus pais, tive porém a sorte de me cruzar na escola com pessoas diferentes de mim e calhou não nos rejeitamos umas às outras. De uma turma de trinta, conto duas pessoas com quem consegui embarcar num intercâmbio de realidade, vamos dizer assim. Não posso afirmar que elas se tenham fundido com o meu mundo, porque, e hoje percebo isso, a relação com o privilégio normaliza os lugares onde cada um de nós está, e honestamente, acho que é normal que elas, eram duas raparigas, com o passar do tempo, se tenham esquecido de mim e eu delas. No caso delas, porque estão num lugar confortável, nutrido, onde nunca há um encontro, nem que seja fugaz, com a escassez.
No meu caso, porque oscilo entre sentir que não tenho espaço na minha vida para grandes reflexões e ao mesmo tempo, constato que a vida que levo, me obriga a refletir constantemente.

Às vezes penso que estas duas raparigas foram a minha corda temporária, ou ilusória, de progressão social, ou de pertencimento talvez. Para elas, eu fui alguém muito diferente delas, com quem se deram particularmente bem. Juntas, atravessámos os altos e baixos dos exames, das aulas, e sinto que naquelas semanas e meses, nenhuma de nós ficou para trás. Mal acabou o contexto que justificava a nossa interação, assim que o nosso chão comum se evaporou, os nossos caminhos afastaram-se para sempre e até hoje, não se voltaram a cruzar.
Agora, vou falar um pouco delas as duas.
Uma era a Carmo, a outra era a Joana. À Carmo chamávamos de Carminho, sem questionar. A Carminho era mais baixa do que eu mas mais alta que a Joana. Eu era a mais alta de todas. A Carminho e a Joana tinham cabelo liso, pelos ombros, brilhante, com risco ao meio. Ambas. Não havia ali uma ameaça de humidade ou de cabelo por esticar. Eu achava intrigante. Andavam sempre bronzeadas o ano inteiro. Como seria possível? Até me dava vergonha da minha pele branca esverdeada, meia doente, pelo menos entre outubro e março eram estes os meus tons, mas elas, mesmo perante o inverno mais fechado e sombrio, tinham a pele caramelo cremoso. Mais tarde, percebi que ambas iam de férias para a neve. Antes não percebia bem o que aquilo queria dizer, e até hoje acho que também não, mas só sei que quando voltavam, vinham com aquela cor e isso durava até irem para o Algarve, de onde voltavam em setembro. A cor do Algarve rendia até irem para a neve e era assim o ciclo anual da pele da Carminho e da Joana.
Vestiam-se mais ou menos da mesma forma, com a mesma métrica de colares ao pescoço e de pulseiras nas mãos. Eu também me vestia assim, mas elas eram o original e eu, a cópia. A maioria das outras pessoas da turma, originais, não se misturavam com as cópias, como eu. As minhas pulseiras e colares eram das feiras onde a minha mãe ia ao sábado ou trazidas pelo meu pai dos cafés onde entrava todos os dias. Eram brindes.
Na escola, tinha o hábito de ir para campo de futebol jogar com um rapaz, o Afonso. Passávamos ali um bom bocado sempre ao final do dia, eu não tinha para onde ir e ele pelos vistos, também não. Não havia assunto entre nós, ele ficava à baliza e depois ficava eu, alternávamos até começar a anoitecer e o porteiro da escola nos mandar embora. Os pais do Afonso não tardavam a chegar e eu ia para a paragem do autocarro. A minha mãe preferia que eu ficasse na escola até mais tarde, do que vir para o bairro antes dela chegar a casa.
Há um dia em que os outros rapazes, amigos do Afonso, fizeram-no reparar que eu não sou das originais, mas sim uma cópia. “Ela é do bairro, o pai dela é taxista e a mãe acho que lava escadas.” Não foram idiotas comigo, embora sendo, porque o Afonso desde esse dia, nunca mais apareceu na baliza depois das aulas. De modo que muitos foram os finais de tarde em que fiquei a ser guarda redes e ponta de lança ao mesmo tempo. Não me aborrecia e de certa maneira, parece que já esperava tudo o que me foi acontecendo, naquela altura e depois, ao longo da vida.
Numa dessas tardes, a Carminho veio ter comigo. Nesta altura, ainda havia o tal chão comum. Lembro-me dela me perguntar “Hoje já não temos mais aulas, porquê que ainda estás aqui? Queres vir comigo à biblioteca?”
Até esse dia eu nem sabia o que era uma biblioteca e que a nossa escola tinha uma.
É curioso. Por causa desse resgate, ouvi um livro pela primeira vez. Chamava-se A casa dos espíritos, era “incrível”, dizia ela, e lá segui eu. Do lugar onde eu estava, nem sequer podia conceber o que era um audiolivro e o que ouvir histórias me poderia trazer de bom. Desde esse momento, entendi muitas coisas e ao mesmo tempo, não entendi nada, porque acho que não vivo nenhuma das coisas que li. Mas compreendi que a cabeça é como um pedaço de terra, e os livros, a música, os estudos são o trabalhar da terra para um dia poder ali crescer um pomar de macieiras e de pessegueiros, com tantos frutos que alguns ramos quebram. Esse ramos estão sempre cheios, sempre infinitos, sempre ao dispor, sempre pertencentes.
Foi bom para mim, andava a levitar naquela altura, as histórias preenchiam um espaço vazio que ainda hoje transporto comigo. Eu acho que se deve pagar para ir ao teatro, para ouvir música, embora eu nunca tenha tido dinheiro para fazer essas coisas. Deve-se pagar sim. Ou quem lá vai ou o governo, mas alguém tem que pagar. É que quando andava a ler e a ouvir música, parecia que andava consolada, como se comesse sopa todos os dias. Paga-se pela sopa, então deve-se pagar a quem nos faz sentir assim.
Entretanto perdi o rasto aos livros e às músicas e o consolo é algo que já nem me lembro bem ao que sabe. Há mundos que de facto custam a misturar. Tenho pena.
Desligo o aspirador, por hoje, está feito. Vou agora encontrar-me com ele para entregar a minha parte da renda. Confirmo novamente se o envelope está comigo. Está. Por enquanto, está.
Fico a pensar que o tal vazio que sinto talvez seja resultado de uma coisa que está presente através da sua ausência.
Realmente, é tudo uma questão de condição.